De Pompeia ao Cão Fila K26 - A Pixação

Falar sobre Squadafum é também falar sobre contracultura. A marca surge de recortes das vivências pessoais dos amigos que deram início à Squadafum, do skate à música, da arte à militância.


E sendo vivências sobretudo das ruas, não há como ignorar o ator principal da cidade cinza: os muros.


São neles que se encontram as expressões artísticas mais genuínas, de artistas que se acotovelam na disputa por um espaço para deixar sua contribuição. Nesse bolinho, sempre estivemos envolvidos.


Mas bem antes de São Paulo ser considerada pólo artístico marginal com sua pixação de vanguarda, muita água rolou.


Contar a história da pixação, passa por se discutir o que de fato é considerado pixação. Um debate antigo e longo.


A expressão através da tinta sobre muros, é algo milenar. Sem os pixadores de outrora, a humanidade moderna pouco teria entendido sobre culturas antigas.


E se as pinturas rupestres ou os hieróglifos egípcios não bastam como exemplo, por às vezes funcionarem mais como livros contando histórias do que mensagens avulsas, a erupção do vulcão Vesúvio, no longínquo ano 79, põem fim às dúvidas. 


Quando as cinzas foram varridas do lugar, descobriu-se não apenas Pompeia, uma cidade fundada por volta dos séculos VI e século VII a.C, onde hoje situa-se Nápoles, na Itália. Também se revelaram vários muros cobertos por pixações que, diferentes dos hieróglifos, não deixam qualquer espaço para outra interpretação - eram pixações.



Parede com Pixações em Nápoles Itália
por volta dos séculos VI e século VII a.C

 

Da pixação poética, como “Namorados são como abelhas, têm uma vida feito mel”, até pixações estilo “sujeito a guincho” de outros tempos, como “Ao que defeca aqui: cuidado com a maldição. Se ignorá-la, que um Júpiter irado torne-se seu inimigo”, os muros revelavam que se pixava para diferentes fins.

 

Além de ofensas e mensagens políticas, muita putaria era pixada por lá - a maioria por homens heterotops de outros tempos, se gabando da fama de garanhão.

 

Mas várias pixações eram mais diretas e retas em seu objetivo: apenas demarcar território.

 

O que distancia afinal “Satura esteve aqui em 3 de setembro”, em um muro da antiga cidade de Pompeia, e uma tag qualquer em um muro do bairro da Pompeia, na Zona Oeste de São Paulo? Talvez apenas uns 2000 e tantos anos.


Parede com Pixações em Nápoles Itália
por volta dos séculos VI e século VII a.C

 

Já a pixação no contexto mais moderno, em especial em solo nacional, tem uma origem também com diferentes fins.

 

Nos anos 60, com a Ditadura dos Milicos, os muros das grandes cidades eram verdadeiros palcos de manifestações políticas sob tinta. Não havia saída melhor (talvez nem outra) para um país onde até as gráficas eram controladas pelos agentes da Ditadura.

 

Mas foi também durante a Ditadura Militar, já nos anos 70, que um outro pixador, com outro fim, iria popularizar ainda mais a cultura de jogar tinta por aí. Antenor Lara Campos, o “Tozinho”, só queria divulgar seu negócio próprio como criador de cães da raça fila, quando saiu por São Paulo pixando “Cão Fila K 26”.

 

A inspiração dele já indicava que ele não era o pioneiro na ideia de fazer propaganda usando os muros da cidade. O próprio “Tozinho” contava que teria seguido os passos de Adhemar de Barros, político conhecido por pintar os muros com seu nome e número - prática que se descontrolaria algumas eleições depois e terminaria proibida.

 

Mas o fato do “Cão Fila K 26” ser uma iniciativa sem qualquer autorização, em tempos onde se precisava de autorização até para estar parado na rua, fez com que muitos considerassem “Tozinho” o pioneiro da pixação em seu sentido mais marginal.



Sr. Antenor Lara Campos

 

A história da humanidade demonstra a importância da prática de se expressar através das tintas nos muros. E partindo das pinturas rupestres até a cidade de Pompeia, a prática parece até hoje ser um elo de inspiração e remonte da cultura.

 

O “Cão Fila K 26” serviu como impulso para toda uma geração que também faria história usando os muros. Da iniciativa do “Tozinho” até a consolidação da tipografia dos pixos paulistanos, há muita história. E dessa história, bebemos da fonte.

 

Mas de história em história, o tempo fica longo, então deixemos essa outra parte para um post futuro.

 

Valeu, muros!


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