Entrevista com um artista urbano: Conheça Alex Senna 

 

O artista brasileiro Alex Senna, natural de Orlândia, cultiva desde de criança sua relação com a arte e o desejo de desenhar inspirado pela sua família, mãe e irmão, como nos contou durante a entrevista.

 

Alex traz em seus trabalhos reflexões, em sua maioria preta e branca, sobre relações humanas e sentimentos, buscando criar um diálogo e despertar sensações em quem passa diante de seus murais e intervenções urbanas. A mensagem que ele passa é clara e simples, sempre vinda do coração e carregada de emoções.

 

Recentemente lançamos a collab Squadafum x Alex Senna e aproveitamos para trocar uma ideia com o Alex, sobre a vida, viagens, seus primeiros desenhos e muitas outras coisas. Confira esse papo aqui na íntegra.

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Squadafum: A gente queria que você falasse um pouquinho de você, você nos mandou uma biografia em que você conta sobre a essência da sua arte e murais em mais de 25 países.

 

Alex Senna: Meu nome é Alex, mas o pessoal me conhece como Alex Senna e eu comecei a pintar em 2009, quando  realmente entra no meu estilo de vida.  Eu to na mesma sequência, na mesma batida, pintando. O estilo de vida de quem pinta sem parar, você fica nisso eterno. 

 

SquadafumConta pra gente como foi desenvolver os seus primeiros desenhos?

 

 

Alex Senna: Eu comecei a desenhar muito pequeno já, tipo, meu irmão desenhava bastante, minha mãe desenhava bastante, então existia esse incentivo. Cara, eu acho que os meus primeiros desenhos devem ter sido a turma da Monica, Mickey, aquele tipo de coisa copiando, Alex Kid. Você vai copiando as coisas que você gosta, os meus primeiros desenhos já um pouquinho mais maduro já era uma outra fase da qual você tem que inventar o que vai ter ali. Nessa de fazer isso, você acaba se expondo de uma forma, então rola meio que um medo e tal. 

 

Squadafum: Você diria que rola uma certa insegurança?

 

Alex Senna: É! Sim, sim! É louco, são só os primeiros desenhos, mas você já fica tipo na preocupação do que as pessoas vão dizer “ah meu Deus”, sendo que nem precisa né. 

 

Squadafum: E você acha que isso vem mais do medo de ser comparado com outros artistas ou a exposição?

 

Alex Senna: Acho que a exposição mesmo, não sei no caso de outras pessoas mas as vezes pra você desenhar uma parada ou tentar passar uma mensagem, muitas vezes é bem pessoal as coisas, então você se expõe né e não é uma situação muito favorável assim sabe [risos], cheia de coisa na cabeça. Mas é só assim que se consegue realmente dizer o que você quer né.

 

SquadafumPorque você escolheu o preto e branco e hoje o que ele traz para você dentro da sua arte?



 

Alex Senna: Tanto eu, quanto meu irmão somos daltônicos, então pra mim nunca foi fácil trabalhar com cor. 

                    

Squadafum: Conta pra gente um pouquinho sobre os seus cadernos de desenho.

 

Alex Senna: Eu fazia os desenhos no computador e aí eu imprimia tudo e colava no meu caderno, pra ter ele na hora que eu fosse fazer um muro, sei lá, eu já tenho mil opções, uns letreiros, várias possibilidades. Ideias que eu tinha e não queria perder, eu colava tudo aqui. Só doidera. 

 

 

Squadafum: E sempre que você viaja você leva os cadernos ou deixa aqui mesmo?

 

Alex Senna: Eu levo o mais novo, que seria o atual. 

 

Squadafum: É muito louco pra você viajar o mundo fazendo o que gosta né?

 

Alex Senna: Isso ai é muito legal, mas o lance mesmo é a aventura de você estar sozinho, entendeu? Passar pela barreira da língua e você ter que bancar também, porque não é como se você estivesse no Brasil e os caras falam “aé, demoro é o Alex”. Não, você tá lá e os caras tipo assim, "você faz esse bagulho aí?" Um negócio monstro que você nunca fez tá ligado? Que você nunca passou perto disso, mas você fala “faço, faço”. E aí vai, você tipo começa. Não que seja assim, mas a situação que você acaba se colocando sempre tem uma coisa assim, sabe, não sei explicar. 

 

Squadafum: E também rola aquele lance de conhecer muita gente e aí chega uma hora que você conhece várias pessoas né?

 

Alex Senna: Você vive outra vida por um período curto de tempo né. Você tá lá com umas pessoas que não te conhecem, não sabem nada e você pode mostrar o seu melhor se você quiser, você começa do zero. Mas eu acho que a viagem é mais a superação das dificuldades, sabe? Porque é só treta.

 

Squadafum: Como foi quando você começou a viajar? Foi muita treta?

 

Alex Senna: Não, eu fui de férias. Eu morava na casa de um amigo já, aí eu tinha pedido demissão de um trampo e morava na casa desse amigo pagando aluguel de um quarto, então eu tinha uma grana pra me manter ali uma época e aí apareceu esse convite de um amigo meu, o Anselmo, onde eu fui pra casa dele e fiquei lá. Fiquei tipo de “férias” e pensei assim “eu não tava mais trampando, se eu pintar um muro tá bom." Isso foi em 2013, em Londres, só que cara eu cheguei lá mó empolgado, no primeiro dia eu já encontrei o Crânio numa loja de spray e tava no verão o dia durava muito tempo, a gente ficava só pintando, tipo foi muito massa, como se fosse aqui no Brasil, você vai lá arruma um pico, um espacinho e já tava bom. Só que dai no final esse tanto de trampo que a gente fez lá, fez a diferença, o pessoal notou a gente né. E aí a partir desse rolê que alguém me chamou pra um outro pico e aí eu fui me virando. E vários eu que fui por conta própria e numa dessas eu to longe e já atraso, dou um jeito de ficar mais um pouco. O trampo te leva até lá, mas no final é mais a aventura de ter que se virar assim

 

Amsterdam

Kansas City

Mural for Sprayseemo Mural Festival, in Kansas City, Missouri, USA.

 

Squadafum: Ali é você por você né?

 

Alex Senna: É exato! E aqui no Brasil, aqui em São Paulo, a pegada é diferente, todo dia tem alguém pintando. Mano aqui é o role mais competitivo, é esse pico aqui. Lá eu achei a galera, não menos competitiva porque eu não posso falar pela galera que faz o grafite mesmo de trem e essas coisas, mas eu achei que se você chega lá com gás não é difícil de chamar, de conseguir uma atenção, aqui são anos né. São Paulo é uma cidade muito grande, não adianta fazer um, tem que fazer um monte, tem que ficar fazendo, pintar na rua é o bagulho mais cruel que tem, porque se você ficar um ou dois anos sem pintar você desaparece. Então, tipo, eu acho que isso dá uma casca assim, sabe? E aí a gente fica nessas de “pintar, pintar, pintar”, que quando você vai pra uma situação mais adversa você tem isso também a seu favor. Você já tá mais calejado, você tem mais disposição, aceita o não perfeito, sabe? Porque às vezes você tá lá e pros caras que moram ali aquele é o pior muro ou a pior estrutura e pra você tá ótimo, sabe? Então eu fui aproveitando as oportunidades que apareciam.

 

Squadafum: E você diria que você faz mais trampos autorizados ou não autorizados?

 

Alex Senna: Isso depende. Depende da onde você quiser pintar, porque eu to um pouco mais devagar agora no sentido de rua mesmo assim, de pegada, de tá o tempo todo no apetite e tal, mas dependendo não tem essas não. Sei lá, acho que tá um pouco diferente, cada lugar necessita de uma parada, se você quiser pintar embaixo de um viaduto, não tem autorização, tem que ir lá e fazer. Autorizado é mais outra vibe mesmo. 

 

Mooca - Que pode uma criatura, senão entre criaturas, amar?

 

Squadafum: Qual a história desse mural aqui na sua parede?

 

Alex Senna: A historia desse mural pra mim foi muito foda na época. Foi na época da pandemia e os caras me chamaram pra participar de tipo um “pinta aí na sua casa”, era tipo faz um trampo na sua casa e tal… E aí eu tava aqui e foi bem na época que tava todo mundo confinado e eu entrei numas e falei “nossa o que eu vou fazer?”, tá ligado? Entrei assim pesado no que eu ia fazer, levei a sério, eu sofria de ficar “aaaaah”. Aí eu lembro que eu tive uma sequência de insights, que foi bem legal, eu falei assim “é pandemia, vou fazer tipo uns caras indo pra guerra, em cima de um cavalo”, aí eu falei não, isso é ridículo. Aí eu lembrei daquele quadro que é um cavalo pastando e um cara morto, é um quadro que é um cara morto no chão e um cavalo comendo do lado, aí eu falei “não, não vou botar um cara morto na minha casa, vou botar só o cavalo pastando com a cela e tal”, e daí eu pensei “não, não vou botar uma cela no animal”, aí eu tirei a cela e fiz. [risos] Finalmente eu cheguei nesse resultado, foi massa!

 

 

Squadafum: A gente queria saber um pouco sobre a história dos passarinhos presentes nas suas obras.

 

Alex Senna: O passarinho é tipo o grilo falante, entendeu? Ele é a consciência do personagem, então sempre tem um porque é mais ou menos essa a ideia assim, sabe? Não era assim quando eu criei ele, obviamente, mas com o tempo vai ganhando esse corpo.

 

Squadafum: E você diria que ao longo do tempo muita coisa já mudou pra você, tanto na sua vida, quanto no jeito que você se expressa através da arte?

 

Alex Senna: Com certeza! Eu acho que antigamente eu era outra pessoa, hoje eu sou outra, então não tem jeito, o trabalho muda também. Acho que a essência se mantém, sabe? Mas a gente é um ser meio mutante né, então acho que o trampo vai junto. E é bom que mude, porque é isso né, evolução e caminhada. Acho que esses negócios saem no trampo.